Este diário foi escrito na China como uma forma de manter minha família informada sobre a viagem. Obviamente as observações são absolutamente pessoais.
Chegada e Hangzhou (3 a 5 de julho de 2009)
Por conta da gripe suína, a chegada a Shangai foi assustadora. Como sempre eu dormi profundamente durante quase todo vôo de Amsterdan. Fui acordada, assim que o avião pousou, pelo burburinho criado pela passagem, entre as poltronas, de um grupo de figuras totalmente cobertas por roupas, toucas e máscaras brancas. Pareciam saídas de um filme de ficção. Para aumentar meu susto portavam instrumentos que emitiam uma luz (seria sonho ?), direcionada às testas dos passageiros. Eram apenas agentes de saúde com termômetros digitais que identificavam os passageiros com febre. Mas, para alguém ainda muito sonada, como eu estava, parecia caso de abdução. O controle sanitário da gripe H1N1 continuou na imigração. Foi a única vez, em toda a viagem, que houve algum controle efetivo de identificação das pessoas com sintomas de gripe. Como éramos um grupo, a passagem na imigração foi rápida e sem problemas.
Ainda no aeroporto compramos passagens e embarcamos em um ônibus com destino a Hanghzou, nossa primeira parada. A estrada era ótima, com a área de rodagem cinza bem claro, parecendo concreto, lisinha, sem buracos, com acostamento cuidado e cheia de sinalização. Pedagiada, como qualquer boa estrada paulista. A paisagem era bonita, com muitos arrozais, chamando a atenção a quantidade de prédios em construção ou recém-construídos. Também para abrigar todo aquele povo, haja conjuntos habitacionais. O ônibus, inexplicavelmente, deixou-nos em uma avenida larga, na entrada da cidade de Hangzhou. Não era uma estação rodoviária, era rua mesmo. Suponho que o ônibus não tinha autorização para trafegar dentro da cidade. Seria pirata ?
Ali mesmo começou nossa aprendizagem de China. A primeira lição foi que a economia, no país, opera com uma alto nível de informalidade, que atinge em cheio o turista. Grande parte dos serviços de transporte que utilizamos durante toda a viagem pareciam “alternativos” , como os que temos no Brasil. Sem identificação, dirigidos por indivíduos também não identificados por uniformes, crachás ou coisa que o valha, que fazem e cobram o que querem e não têm o menor respeito pelo “cliente”. Também não há para quem se queixar. A segunda lição é que na China há ladrões sim, muitos, e batedores de carteira, como em qualquer lugar do mundo. Mal descemos do ônibus uma colega nossa teve sua mochila aberta e uma bolsinha roubada. A terceira lição, aprendida ali mesmo na rua, é que os chineses, ao sair do comunismo e mergulhar direta e profundamente em um capitalismo selvagem, aderiram rapidinho à Lei da Gerson. Quando estávamos tentando conseguir táxis para chegar ao hotel onde tínhamos reservas, apareceu o primeiro chinesinho malandro. O espertinho falava algumas palavras em inglês e ficou tentando nos convencer de que ele encontraria transporte para nós pela módica quantia de cinco dólares por pessoa. Ninguém topou, mesmo porque, sendo brasileiros, estamos mais que escolados em safadeza. Não tivemos sucesso em nossas tentativas de parar os táxis, mesmo tendo à frente o coordenador do grupo, Pimenta, que falava chinês e se arriscou várias vezes a ser atropelado. Aparentemente, há turnos de operação dos táxis e quando está próximo do final de um turno os motoristas não querem pegar clientes, pois não podem ultrapassar o limite do turno. E os motoristas do turno seguinte, pela mesma razão, ainda não estão autorizados a pegar passageiros. É inacreditável, mas na China pode ser verdade. Finalmente o Pimenta, coordenador do grupo, conseguiu telefonar para o hotel, que mandou uma van para o local onde estávamos. Fomos para o hotel em dois turnos. Fiquei no segundo turno e o chinezinho esperto continuou por lá e até pegou uma carona na nossa van, insistindo em receber algum, mesmo sem ter feito nada. Que grude.
O hotel era um Best Western confortável, embora mal localizado, o que nos levou a enfrentar a maratona de conseguir táxis para sair do hotel. Além dos turnos, os motoristas não gostam de levar estrangeiros porque eles não falam nada em inglês e não conseguem comunicar-se. Saíamos levando cartões com os endereços do hotel e dos locais aonde íamos. Antes de entrarmos nos taxis mostrávamos o cartão dos nossos destinos e os motoristas decidiam se iriam nos levar. Levamos muitos nãos. Tomar taxis virou um martírio.
Hangzhou me lembrou muito São Paulo. Prédios modernos, trânsito caótico, muitos carros, bicicletas e motos, todos absolutamente indisciplinados. As ruas das áreas modernas da cidade de Hangzhou, por onde circulam os turistas e os ricos, são muito limpas. Muito engraçada a forma como é feita a limpeza das ruas. Vem um carrinho pequeno, tipo Fiorino, mas aberto atrás, como uma caminhonete, com um sujeito recolhendo papéis e outros lixos das ruas com uma pinça enorme. Os chineses que encontramos nas ruas de Hangzhou eram muito simpáticos, risonhos e pediam para tirar fotos conosco. Na área antiga da cidade há muitas lojinhas, comprei pérolas e mandei fazer um carimbo. Fui vítima da ingenuidade e paguei por um carimbinho muito do chimfrim e mal feito duas vezes mais do que as outras pessoas do grupo haviam pago. Tudo aqui tem que ser pesquisado e negociado. Como sou incapaz de negociar e me irrito com a falta de preços impressos nas mercadorias vou sofrer para comprar qualquer coisa aqui.
A visita à unidade de cerâmica da Universidade de Hanghzou foi excelente, assim como a visita a vários ateliês de produção de cerâmica contemporânea na cidade. De forma geral, tudo o que vimos ali era de muito boa qualidade. A reunião com o professor da Universidade, que não me lembro o nome, foi muito interessante. Ele situou a cerâmica contemporânea no contexto geral da cerâmica chinesa e mostrou como a cerâmica moderna incorpora elementos da tradicional, modificando-os. Formatos, técnicas, cores, motivos, etc. são resgatados, de forma modificada. Visitamos os ateliês da universidade e vimos os equipamentos, os alunos trabalhando e alguns trabalhos sobre o tema “mãos”, que foi objeto de trabalho do ano. As peças estavam ainda secando, sem acabamento. A maior parte das peças era muito bonita e com design moderno. Havia fotos nas paredes das produções de anos passados e eram todos também de grande qualidade. No ano anterior o tema havia sido “gatos” e vimos peças lindas. Encontramos muito equipamento e fornos modernos, grandes. Nada a ver com a precariedade dos ateliês da UNB, no meu tempo de aluna do curso de extensão. Fizemos muitas perguntas ao professor. Eu indaguei sobre o destino dos alunos egressos dos cursos de cerâmica. O professor deu uma risadinha, disse que era uma pergunta interessante e que, infelizmente, somente uma minoria vivia somente de cerâmica. Alguns eram aproveitados pela própria Universidade como professores. Outros, formados recentemente, haviam achado um nicho na produção de brindes para empresas. Enfim, a situação dos ceramistas na China não é muito diferente dos profissionais da área no Brasil. Do nosso grupo, ninguém vive somente da produção de cerâmica. Uns dão aulas em universidades, outros são aposentados ou têm outras formas de renda, e alguns mantêm ateliês e têm alunos.
Nos ateliês que visitamos na cidade, inclusive do professor, também vimos peças muito bonitas. Algumas jogadas no terreno, no meio do mato, misturadas com peças quebradas, restos de argila seca. Os ateliês visitados eram bem pequenos e, de forma geral, desorganizados e sujos. O banheiro do ateliê do professor, compartilhado com os demais artistas do pedaço, era imundo. Em contraposição a esses ateliês meio precários, visitamos um tipo de vila recentemente construída pelo governo para abrigar jovens artistas, de diferentes áreas das artes plásticas, com casas grandes e excelente infra-estrutura. As casas estão em volta de um grande espelho de água e um jardim bem cuidado. Visitamos a casa ocupada por ceramistas e encontramos ateliês muito bem montados e equipados, com uma pequena galeria de peças produzidas. Tudo bem organizado. Nesses ateliês da vila conhecemos uma ceramista que produzia brindes para serem distribuídos por empresas. Os brindes eram pequenas figuras de monges de porcelana, feitos no torno, com pouca decoração, muito, muito lindos. Enfim, vimos muita contradição. Alguns ateliês lindos, modernos, bem estruturados, organizados e limpos e outros com ar de abandono. Mas, em ambas categorias, cerâmica de alta qualidade.
Comemos relativamente bem em Hangzhou. O café da manhã no hotel era ocidental e o primeiro jantar, à beira do lago, foi bom também e num lugar muito agradável. O almoço na Universidade e o jantar no hotel no dia seguinte foram de lascar. Na Universidade o almoço era para ser japonês. Veio um peixinho estorricado, sorrindo para mim. No jantar, para evitar surpresas, pedi uma sopinha no hotel e tomei uma aguinha sem gosto nenhum.
No último dia em Hanghzou, pela manhã, fomos a uma mega livraria e me espantei com a grande quantidade de jovens lendo sentados no chão e comprando livros. Impressionante também a enorme quantidade de bicicletas na porta. O acervo de títulos sobre cerâmica era bem razoável, muito maior do que em qualquer livraria brasileira, mas quase que exclusivamente de livros chineses. Poucos títulos importados ou escritos em chinês e inglês. Os livros importados eram, de forma geral, muito caros e os chineses muito baratos. Comprei alguns livros chineses de cerâmica, naturalmente muito ilustrados, e três de desenho e pintura em aquarela.
Chegada em Sanbao (6 de julho)
A saída de Hangzhou foi meio complicada, mas deu para rir muito. Aliás, o grupo é muito bem humorado e nos divertimos com quase tudo. O gerente do hotel, um português muito simpático, arrumou um micro-ônibus de 20 lugares. Como éramos 15 pessoas, tudo pareceu bem. Só foi esquecido que cada uma das 15 pessoas estava levando uma mala e, algumas delas, duas. Não havia compartimento de bagagem no micro-ônuibus e tudo foi sendo amontoado no final do ônibus e no corredor. Cada vez que o microônibus parava para alguém fazer um pipizinho, tiravam-se as malas do corredor para o pessoal descer. Depois era aquela confusão, acompanhada de muita risada, para recolocar toda a bagagem no corredor novamente. O motorista dirigiu todo o tempo com um olho na estrada e outro na televisão, onde passava um filme do Jackie Chan. O filme era ridículo e rimos muito enquanto mantínhamos um olho no motorista e outro na televisão.
Chegamos a Jingdzhen no final da tarde, depois de 6 horas de viagem por uma estrada maravilhosa, excelente asfalto e muita sinalização (tudo em chinês, claro), com paisagens de arrozais, montanhas, florestas (de pequenas árvores, porque as florestas nativas foram destruídas nas décadas de 60 e 70 por conta das metas de produção de aço). Os pedágios, muitos, eram arquitetonicamente bonitos, sendo cada um deles completamente diferente do outro.
Na chegada à cidade de Jingdzhen, o Pimenta teve que orientar o motorista até chegarmos ao Instituto Sanbao, local do programa de intercâmbio. A cidade, coitada, bem feinha, parece o Jabaquara. O interessante da cidade são os postes de luz, recobertos com placas de porcelana com diferentes tipos de decoração. Afinal, é a cidade da tradicional porcelana chinesa. Outra novidade, com relação aos postes, foi o fato deles usarem energia solar.
Na chegada ao Instituto Sanbao, a grande surpresa: as condições físicas do prédio não correspondiam exatamente à imagem que eu fazia a partir das fotos que vi na internet. Os laguinhos e o córrego, que davam aquele ar bucólico ao Sanbao das fotos, na verdade, tinham água turva e um entorno coberto de mato e muito cocô de patos, galinhas, coelhos etc., que andavam soltos por lá. Fiquei com pena das rodinhas de minha mala sendo arrastadas por cima daqueles dejetos. Uma das ceramistas do grupo, ainda na recepção, como uma premonição da cilada, perguntou se alguém havia trazido cocar. Eu compartilhei com a percepção de que esse seria um programa “três machadinhas”. Fui logo complementada pela mesma colega. O programa seria, pelo menos, quatro machadinhas plus. Apareceu uma criatura para ajudar a levar as malas para o andar de cima do Instituto e eu fiquei muito grata, pois havia muitas escadas, desníveis e a mala estava pesada. Foi o local onde minha mala foi deixada que determinou o quarto em que eu ficaria. Com o tempo percebi que todos eram ruins, não havia muita escolha, mas eu havia sido sorteada com um dos piores, até porque era dos mais velhos e, portanto, com mais sujeira acumulada. A Eliana é a minha companheira de quarto.
O jantar foi servido em seguida e estava muito carregado na pimenta. Tive que apelar para o chá e o arroz para abater a ardência e conseguir me alimentar um pouco. Foram servidos muitos pratos e os que eu consegui comer eram gostosos, principalmente uma abóbora preparada como uma batata suiça e uma berinjela cozida num papelote de papel alumínio. Veio também uma coisa que as meninas disseram que era pé de pato, mas nem cheguei perto. Virei vegetariana no Sanbao, por saber que aqueles bichinhos que circulavam por lá eram o pão nosso de cada dia. Chegou a hora do banho e ai aumentou o terror, a treva, a certeza da emboscada. Dois banheiros para quatorze mulheres recém-chegadas, loucas por um banho e um xixizinho sentada, pois os banheiros da estrada eram orientais. Quem tem artrose nos joelhos, como eu, não consegue usar aquelas privadas orientais. Você fica quase de cócoras e para levantar é a morte, mesmo porque o cheiro, à medida em que você se abaixa, vai ficando pior, amortecendo os sentidos e as juntas. Depois do xixi sentada, um alívio, tomei meu primeiro banho gelado, pois fui uma das últimas a conseguir vaga. Mais uma idiossincrasia da China. Escrevi e-mails e usei o Messenger num local com internet wireless e sem um chuveiro quente e banheiro decente. A manutenção do instituto é precária e tive que fazer, logo após a chegada, uma mini-limpeza na mesa da ante-sala entre os quartos para poder folhear alguns livros e revistas de cerâmica, bem interessantes, que havia por lá. Minha tentativa de faxina não teve o menor sucesso, pois a poeira incrustada em tudo era, aparentemente, da dinastia Ming e exigiria, pelo menos, um paninho úmido. Em compensação encontrei e, tenho certeza, ainda continua por lá, uma caixa de papelão cheia de escovas de dentes velhas, restos de dentifrícios, sabonetes, shampoos e assemelhados, provavelmente deixados por lá por visitantes antigos. Fiquei imaginando que se procurasse mais no fundo da caixa encontraria uma caixinha de pó de arroz Lady, que minha avó usava na década de 40.
Tour pelo SANBAO (7 de julho)
Na manhã seguinte à nossa chegada a Sanbao, fomos acordadas com as marteladas da reforma que está sendo feita no Instituto para expandi-lo. Ao lado do quarto onde fiquei está sendo construído mais um puxadinho para receber outros excêntricos. Descemos para o café e a Eliana, minha companheira de quarto, que desceu depois de mim, chegou rindo ao restaurante. Com as marteladas da reforma, as cerâmicas que estavam na estante do quarto, em cima das nossas camas, começaram a cair e, junto com elas, toda a poeira centenária acumulada nas estantes. Minha cama ficou cheia de sujeira. Pedi à Jinjin, gerente substituta, se assim se pode chamar aquela criatura sorridente, sempre de shortinho e celular na mão, providenciar a troca da roupa de cama, mas foi inútil. Essa coisa de limpeza aqui é crítica, eles não ligam à mínima para a sujeira. Paredes encardidas, pias imundas, banheiros fétidos, e eles sorrindo e nem aí. Lembrei da música: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Foi o que fiz. Dei uma sacudida na roupa de cama e pronto.
Encontramos o chefe do instituto, um ceramista de renome, segundo o Pimenta, cujo nome ocidentalizado é Jackson Lee. A criatura não fez o menor esforço para ser simpático e não parece se importar a mínima, nem com as condições do Instituto, e muito menos com os visitantes. Quem toca o instituto, porque não dá para chamar aquilo de gerência, é a irmã do dito cujo, cujo nome ocidentalizado virou Wendy. Ela está em Londres e sua substituta é a tal de Jinjin que, pelo que entendi, é sua sobrinha. Nepotismo chinês, com o mesmo resultado do nacional: incompetência. Todos no instituto têm nomes assim: dindin, jinjim,tintin, dondon etc. e eu faço a maior confusão com os nomes.
Segundo o Pimenta, apesar da precariedade das instalações e da manutenção, gringos são recebidos todo o ano e, pelas placas na porta de entrada, o instituto tem apoio de várias instituições estrangeiras. Não acredito muito nessa história de apoio. Na China, não é difícil que as placas sejam falsas. Se existe mesmo esse apoio internacional, as razões são um mistério a ser desvendado. Ainda tenho quase duas semanas para descobrir, afinal eu também cai na cilada. De fato, não há ceramistas por lá produzindo, orientando vivências ou intercambiando informações e experiências. Não há nem vestígios da passagem de ceramistas por lá, muito menos de intercâmbio. As instalações são pífias e o preço de hotelaria é de hotel quatro ou cinco estrelas na China, US$50,00 por pessoa em quartos duplos ou US$100,00 por quarto. Algumas pessoas acham que a procura pelo instituto, se é que ela existe realmente, pode ser atribuída à oportunidade de trabalhar com uma porcelana muito fina, a melhor da China e talvez uma das melhores do mundo. Pode ser. Quando chegamos só havia um americano instalado no Sanbao, bem jovem, de Utah, produzindo utilitários para o próprio instituto.
Acho que poderia montar uma arapuca dessas lá no nosso sítio. Boto alguém para posar de artista excêntrico e ofereço para gringos que querem ter uma experiência em lugar exótico – Santo Antonio do Descoberto. Até o nome ajuda. Claro que o Geraldo e a Edna seriam aproveitados no quadro de gestão, para ficar tudo como em Sanbao, sujo e cheio de mato. O Edmário, nosso jardineiro baiano, também teria grandes chances de ser aproveitado no quadro de funcionários, pelas mesmas razões.
O café da manhã, o primeiro no Sanbao, foi estranho. Havia fatias de melancia deliciosas, mas sem talheres para comer, sem prato para jogar as sementes e sem guardanapo para enxugar as mãos. Foi aquela melação. Serviram também aquele pãozinho cozido no vapor, como se encontram nos restaurantes chineses no Brasil, mas com um recheio indecifrável. Comi a metade, dando um jeito de tirar o recheio. Havia um tipo de guiozá meio verde, que nem toquei, e ovos cozidos. Há muitas galinhas e patos andando pelo instituto e nadando nos vários laguinhos sujos e cercados de mato. Claro que muitos pernilongos também, para compor o ecossistema. Hoje vimos que coelhos igualmente fazem parte da fauna local.
Depois do café da manhã fomos passear pelo Instituto e, para minha surpresa, as oficinas são limpas e organizadas, embora sem água corrente. A água utilizada para tornear e limpar é retirada do córrego que corta o Instituto, para onde vão também os restos da água utilizada. Fomos ainda ao ateliê do Jackson Lee que, como se fosse uma grande concessão, aceitou que entrássemos no ateliê e o fotografássemos trabalhando com pintura com pigmentos sobre placas de porcelana. Minha cabecinha capitalista me lembrou de que eu estava pagando por um serviço de intercâmbio para aquele senhor, o dono do pedaço, e que ele não apenas deveria abrir o ateliê dele para nós, como efetivamente mostrar como trabalhava, falar de técnicas, ouvir quais eram nossas expectativas no Sanbao e tratar de atendê-las. Ledo engano. Com o tempo ficou bem claro que receber brasileiros é só um programinha caça-níqueis do Instituto.
Algumas placas do Jackson Lee eram bem bonitas, mas os utilitários de cerâmica que me informaram serem dele e estavam à venda na lojinha do Instituto eram feios na forma e no esmalte, além de pouco funcionais. Alças de chaleiras próximas ao corpo das peças, que podem queimar as mãos, chaleiras muito pesadas, bicos que pingam etc. Havia também, passando um tempo no Instituto, um pintor chinês. Depois da visita ao ateliê do Jackson lee fomos ao seu ateliê e achei o trabalho dele feio e sem o menor interesse. Pulei logo fora do programinha baba-ovo de pintura. Fiquei lá fora tirando umas fotos do arrozal, da horta, do entorno. Vi, em vários lugares, que eles plantam as abóboras em latadas, elas ficam penduradas. Quando o peso ameaça fazer a abóbora despencar, um apoio de madeira é colocado nas estacas para segurar as abóboras. É muito engraçado ver aquelas abóboras em prateleiras.
A parada na galeria do Sanbao valeu a pena. O Pimenta selecionou peças com diferentes técnicas e explicou rapidamente como eram feitas e onde. Valeu. Claro que a galeria, para “ornar” com o resto do instituto, não tem a menor organização, são peças de diferentes épocas e artistas, tudo misturado e empilhado, no meio de muito pó e sujeira velha.
O almoço foi gostoso e muito variado. Eles preparam abóboras de diferentes formas e todas gostosas. No almoço serviram umas lâminas de abóbora refogadas ligeiramente no alho (acho). Havia também umas vagens com gergelim, um bolinho de verdura frito, ligeiramente apimentado, tofu refogado em um molho não sei de que, uma carne daquelas que chamamos desfiada com broto de bambu e arroz branco. Comi bem e tomei chá. Só bebo chá, por ser feito com água fervida. Apesar de tudo, acho que nem vou emagrecer.
À tarde fomos às compras de material para trabalharmos nas oficinas. Tudo muito barato e eu comprei um montão de ferramentas e mais um spray gun. Em matéria de spray guns vou competir com os equipamentos de água do sítio ou de filtros para os espelhos de água aqui de casa. Fomos também a uma loja de pigmentos, mas não comprei nada. Não gosto de trabalhar com cores e nem de ficar pintando em cerâmica.
O transporte que usamos merece descrição. São duas mini-vans, bem sambadinhas. Uma delas tem ar condicionado e, claro, é a preferida. Eu entro em qualquer uma das duas, até porque nunca fui boa na identificação de carros e nunca sei qual é a melhor. O problema da que não tem ar condicionado é que os vidros são mantidos abertos. Assim, a cada cusparada do motorista, que são muitas, porque os chineses não interrompem qualquer vontade de expelir secreções e gazes, os passageiros dos bancos entram na linha de risco de receber respingos. O grupo brinca com isso e assim que se ouve o começo da cusparada levantam-se os chapéus, bolsas etc. para proteger os rostos. Pagar os motoristas é sempre um exercício chato. Como não se fez “caixinha” , a cada viagem o custo do transporte é dividido entre os passageiros e começa o exercício de procurar troco e moedinhas. Um porre. Além disso, embora os trajetos sejam os mesmos, não é raro que os preços sejam diferentes e que se tenha que discutir.
Na chegada do passeio do dia, mais outro momento de tortura para o banho. Resolvi mudar de banheiro para ver se ficava mais confortável. O banheiro do segundo andar é um pouco melhor que o do nosso, pelo menos é de cerâmica, mais claro e mais novo. O telhado é de vidro e qualquer criatura que passe no bambuzal na parte de cima do instituto poderia assistir aos nossos banhos. Novamente tomei banho de água gelada, pouca, sentindo aquele cheiro de umidade do estrado de madeira. Tomo banho de chinelo, sempre, com medo de pegar alguma frieira.
O jantar foi gostoso. Há um americano trabalhando na oficina, que ficará três meses por aqui. Ele sentou-se na nossa mesa, a gente até engatou uma conversinha em inglês, mas depois de alguns minutos, já estava todo mundo no português e morrendo de rir de qualquer coisa. O grupo é muito simpático e sem grandes complicações, constituído de mulheres bem resolvidas e muito bem humoradas, o que tem nos permitido rir muito da desgraceira do Sanbao, que já comecei a chamar de Scambao.
Fábrica de decalques (08 de julho)
Poderia mesmo encontrar nosso jardineiro baiano Edmário trabalhando por aqui entre os machos chineses. Aliás ele faria sucesso, porque o ritmo dos machos chineses é devagar quase parando. As mulheres, em compensação, estão sempre ativas, correndo. A gente passa nas ruas e vê os homens sentados na frente dos comércios, quase sempre pequenas lojinhas ou oficinas, jogando uma coisa que parece um dominó. Todo esse comércio local é muito feio e sujo, com aparência de degradação, talvez pela desorganização e caos interno, pelo lixo acumulado na porta, pela cara de desesperança das pessoas e pelas panelas e fogões na rua, onde são preparadas e consumidas as refeições e lavadas as tralhas da cozinha. Em muitas casas não há cozinhas internas. Pelo que li e ouvi, durante o período revolucionário, cozinhas e banheiros eram coletivos. Hoje, embora as famílias cozinhem para si, o fazem em espaços adaptados, “puxadinhos” , na frente das casas, quase na rua. Nas áreas mais pobres, onde prevalecem casas e não prédios, vi bacias de água usada sendo jogadas na rua.
Alguém do grupo observou que o comportamento de muitos chineses é de funcionário público, que é o que eles efetivamente foram por muito tempo. Ainda não entendi direito a coisa do público e privado por aqui. Há uma grande mistura de situações. Aparentemente o Sanbao é privado mas, pelo que entendi, depende da vontade das autoridades locais do partido deixar operar, apoiar ou manter uma instituição. Como faz o nosso PT com algumas ONGs. O instituto é cheio de fotos do MAO, algumas bem interessantes do ponto de vista de sua utilidade para a construção de um mito, principalmente as da década de 1960.
Hoje pela manhã, depois de ter desistido do banho matinal e da maioria da comida servida no café da manhã oriental, fomos a uma fábrica de decalques e só havia mulheres trabalhando, em ritmo frenético. Os decalques são feitos com uma mistura de pigmentos e água que é passada através de uma tela de silkscreen com o desenho do decalque. O lugar não tinha a menor condição de segurança de trabalho. Higiene, então, nem pensar. Sem luvas e sem máscaras elas manipulam tintas a base de cobalto, cobre, cromo e, pelas cores dos decalques que vi, suspeito que até de cádmio e vanádio.
Havia uma mãe trabalhando com a filha do lado e chamava a atenção a roupa da menina, que refletia a moda chinesa de vestir. Depois de tantos anos de uniforme MAO, elas descobriram o mundo fashion. A garota, de uns oito anos, ela estava vestida com uma batinha de cetim bordado de lantejoulas sobre uma calça comprida de renda preta. Elas adoram um rosa brilhante, como a Isabela. Os modelitos que se veem nas ruas são um primor de brilhos, rendas, transparências, laços e cores. Tudo com meias soquete e sandálias de verniz bem brilhante. E, claro, uma sombrinha com rendas na ponta, rebordadas de lantejoulas. Um must. Elas morrem de medo do sol. São todas bem branquinhas. Para se proteger do sol elas usam, quando em bicicletas e motos, uns chapéus com abas enormes. As ruas próximas da fábrica de decalques eram muito sujas, com lixo acumulado, lembrou-me Maputo.
Saindo de lá e fomos comprar pincéis. Comprei logo os meus e fui para a rua. A loja vizinha era de chá e foi ótimo. O dono estava feliz de receber “firangas estrangeiras” . Ficou fazendo e servindo chás deliciosos e só saímos de lá quando o Pimenta chegou. O jeito de preparar o chá é diferente da cerimônia do chá japonesa, mas igualmente trabalhosa. Comprei chá verde e uma chaleirinha de Yiching, uma cerâmica muito especial que não deixa o chá verde oxidar-se. As peças são feitas manualmente, com paleteado, muito finas e sem esmaltes. A argila tem diferentes tons de marrons avermelhados. Lindas.
No Sambao, como na fábrica de decalques, as mulheres trabalham muito. Estão sempre se mexendo rapidamente, embora com pouco resultado, a julgar pela situação do Instituto. Elas também são encarregadas das cobranças, cobram tudo, em geral duas vezes. Hoje paguei para lavar a roupa quando a deixei. Quando elas vieram entregar quiseram cobrar novamente. Disse logo um BU, que significa não. Aí, ela sorriu, disse sorry e se mandou. Fiquei pensando se ela teria coragem de colocar a cobrança no check out. Não deu outra. Na saída, ao pagar o instituto, lá veio a cobrança de duas lavagens de roupa. Tive que chamar o filho da cobradora, que fala inglês, para não pagar novamente. Aí ela disse sorry novamente e por meio de gestos fez entender que me confundiu com outra pessoa do grupo. Pelos gestos me confundiu com alguém com uma bunda maior. Pelo visto, para eles, ocidentais têm a mesma cara como, para nós, os orientais.
Depois do almoço trabalhamos no ateliê e eu escolhi uma massa de porcelana fantástica. Mas a água para trabalhar é apanhada do mesmo “corguinho” que vem de longe, muito antes do Instituto, onde nadam aqueles patinhos de que já falei e onde são jogados restos de melancia para eles comerem e, imagino, outras coisitas mais. Aliás o Jackson Lee fica comendo melancia em um terraço próximo do córrego e jogando as cascas para os patos. Não só não cumpre suas obrigações de intercâmbio como ainda suja o pobre córrego de onde pegamos água para trabalhar. Vi também um mulher lavando roupa lá. Quer dizer, a água que eu uso para tornear deve ser cheia de resíduos fecais, pelo menos de patos e outros bichos que andam por lá. Vimos também um cachorro sendo lavado lá. Ficamos brincando que eles estavam lavando nosso jantar. Até inventamos uma receita: paga-se um cachorro de bom tamanho, lava-se bem....
Hoje à tarde, enquanto trabalhávamos no ateliê, o dono do pedaço, o tal Jackson Lee fez, lá mesmo, uma sessão de acupuntura. Tinha um fotógrafo registrando simultaneamente nosso trabalho e a sessão de acupuntura. Ficamos imaginando o que levaria o cara a se expor numa sessão publica de acupuntura, no meio de gringos. Acho que faz parte da intenção de mostrar o instituto como um lugar exótico, impregnado da `milenar cultura`, que recebe excêntricos como eu.
Porcelana é difícil de trabalhar. Pouca plasticidade, não aceita ser muito mexida. Tem que trabalhar rápido, sem errar muito e sem muita água ou a peça desanda. Não dá para ficar reaproveitando e reamassando também. Ela perde completamente a plasticidade e começa a rachar. Mas é macia e gostosa de tocar. Fica translúcida depois de queimada em alta temperatura.
No final da tarde, quando eu já estava no banheiro para mais um uma banho gelado, chegou uma criatura homem para arrumar a água do chuveiro do segundo andar, que só apresenta duas opções: água gelada ou um fiozinho de água quente que não dá para o banho de ninguém. Ele apareceu, olhou o chuveiro, mexeu nas torneiras e disse em chinês alguma coisa que entendemos como está tudo OK, é assim mesmo. A Raquel ainda insistiu, ficou repetindo BU CHUEI (não água), mas foi em vão. Eles vencem pelo cansaço, sempre. Tomei mais um banho gelado, que não foi mal porque a temperatura chegava perto dos 40 graus. A chinesinha que acompanhou o especialista em chuveiro ficou rindo o tempo todo e dizendo sorry. Elas são muito sorridentes e desculpantes. Incompetentes, mas simpáticos.
Quem já entrou no clima da sujeira foi o americano gordão que anda por aqui. Trabalhou o dia inteiro no torno, foi para o jantar com a mesma roupa suja, ficou no bar bebendo com os chineses e os brasileiros até tarde e acabou de passar por aqui para dormir, com a mesma roupa, sem banho. Quando ele abre a porta do quarto, empesteia toda a sala de estar que existe entre os quartos. Pelo menos alivia o cheiro de poeira e bolor. O lixo que encontramos na sala quando chegamos, continua por lá. Deve ser de estimação, assim como as teias de aranha, todas devidamente catalogadas.
Para piorar tudo à noite, a iluminação do Sanbao é pífia. Fica sempre tudo escuro. Para acender as lâmpadas dos corredores e escadas é necessário bater palmas. Se você tem algum pudor de fazer barulho à noite e acordar alguém, corre o risco de cair naquelas escadas de degraus irregulares. Agora à noite uma colega brasileira caiu na escada e machucou o tornozelo. Como ficou logo muito inchado, acharam melhor levá-la para o hospital. O Pimenta a acompanhou. Vou dormir porque foi muita emoção por hoje.
Forno do dragão e Gaolin (9 de julho)
Não sei se terei ânimo e paciência para continuar este diário por muito tempo. Mas está gostoso escrever porque me faz lembrar o que vi durante o dia. A idéia era botar tudo no blog, mas não tenho conseguido acessar o blog que criei e nem tenho muito saco para ficar alimentando o dito cujo. Definitivamente não sou da geração informatizada e nem me sinto bem abrindo expondo minhas opiniões na internet. Vou continuar mandando esse diário por e-mail. Parece que em função de um problema no norte do país a comunicação está mais controlada. Tenho tirado muitas fotos.
O dia hoje foi muito bom para ceramistas. Fomos visitar um forno dragão, um dos poucos ainda existentes na China. Ele tem cerca de 120 metros de comprimento e é construído em aclive. Tem uma câmara em baixo onde é colocada inicialmente a lenha, uma porta grande na metade do comprimento do forno, por onde é feita a colocação das peças, que ficam em pequenos patamares ao longo do forno. O forno é cheio de buracos nas paredes laterais, ao longo de todo o forno, onde vai sendo colocada mais lenha durante a queima. A alimentação de lenha é feita trecho a trecho, durante toda a queima. É iniciada no primeiro trecho do forno, quando a temperatura na câmara onde a lenha é colocada está em torno de 900 graus, cerca de 6 horas após o início da queima. Os demais trechos recebem lenha quando o anterior já está quente. O forno chega a 1280 graus e queima cerca de 24 horas, com alimentação de lenha feita por 6 homens. Como o forno é muito grande são feitas apenas cerca de 5 queimas por ano.
O dono do forno, por assim dizer, que ainda não entendi direito o que significa ser dono de alguma coisa por aqui, é uma pessoa simples. Ele e seus funcionários produzem peças grandes em série, em geral vasos e muflas, usando técnica de paleteado e sem esmaltação. O brilho das peças é dado pela argila queimada. Aparentemente não é pessoa de escolaridade alta, como os outros ceramistas/artistas que encontramos em Hanghzou. É como se fosse um dono de olaria, um oleiro que tem sua própria oficina, como o Seu Ademir de Brasília. A casa dele, na qual não entramos, segue o padrão de casas que se vê na zona rural. Dois ou três andares, de alvenaria, muitas delas revestidas de azulejos e com alguns enfeites kitch. De fora parecem confortáveis. O forno está no meio de um arrozal e a casa tem, como quase todas, uma horta com muitos legumes plantados. No barracão onde as peças são torneadas e esmaltadas, ao lado do forno, há dois quartinhos com catres, tudo bem simples e precário, com mosquiteiros. Não há outros móveis além da cama e, em um deles, uma escultura ainda sendo feita. Ali devem dormir os outros artesãos que trabalham por lá.
Tiramos muitas fotos do forno e do grupo perto dele e estou louca para mostrar essas fotos para meus amigos ceramistas de Brasília. O Paulinho iria adorar o passeio. Saindo do forno fomos para uma cidadezinha histórica, Yaulin, tombada pela Unesco e literalmente tombando. Almoçamos por lá mesmo em um restaurante grande, com várias mesas redondas cobertas por toalhas brancas sujas, sobre as quais foram colocados plásticos bem fininhos. Havia uma família vendo televisão na sala do restaurante, desenho animado, com várias crianças. Uma senhora, que eu imagino fosse a avó, limpava vagens no meio do salão, enquanto olhava o netinho, de menos de um ano, sentadinho em uma cadeira. As roupas das crianças pequenas têm um buraco na bunda. Eu já havia lido sobre isso no livro da Sonia Bridi. Elas fazem suas necessidades fisiológicas onde estão, sem sujar a roupa. Logo aprendem a controlar a bexiga e o intestino. Claro que contribuem para aumentar a sujeira local. Enquanto almoçávamos, três mulheres da casa\restaurante foram para uma sala ao lado do salão onde estávamos e começaram a jogar aquilo que parece um dominó. No meio do caos e do serviço eles param para jogar, outro must. Demos uma volta pela cidade tombada e pedimos para entrar em uma casa. Tudo muito simples, quase sem mobília, mas cheia de retratos do “grande timoneiro”. Impressionante, o cara foi um ditador sanguinário, já morreu há muito tempo, mas continua a ser reverenciado. O Lula morreria de inveja do marketing do companheiro.
Da cidade derrubada, fomos para Gaolim, a montanha de onde era retirado o caulim utilizado para a fabricação da porcelana, em diversas dinastias. Resolvi subir, com algumas pessoas do grupo, para um passeio em volta da montanha, de cerca de 50 minutos, cheio de subidas e descidas. Foi bem interessante conhecer a área, ver a entrada de algumas galerias das minas de caulim e imaginar em que condições os chineses trabalhavam lá para produzir porcelana para o imperador. Deu uma senhora canseira. Só cheguei ao fim da caminhada porque a quantidade de subidas que teria que enfrentar para desistir seria a mesma de prosseguir. Na volta, aleluia, como diria a bispa Sonia, fomos ao Wall Mart comprar algumas frutas e biscoitos para o café da manhã. A comida do Scambao dá para encarar bem, mas o café da manhã, ou como diria a Adriana da Stressar, “o small lunch”, é muito estranho para nós. Eliana e eu não conseguimos identificar o que era biscoito nos pacotes fechados, pois era tudo escrito em chinês e compramos somente frutas, yogurte (deduzimos que era yogurte) e uns biscoitões com gergelim em cima, embalados em plástico transparente. Na chegada ao Scambao foi outro drama para a fila do banho, mas o jantar foi relativamente bom.
Fábrica dos Grandes Potes e Fábrica de esculturas (10 de julho)
O dia começou de lascar. Acordei e fui correndo para pegar o banheiro das 7:30 horas para o xixi, pois do banho matinal já desisti. Já havia duas pessoas na fila e fiquei por perto, toalha na mão. Quando chegou a minha vez, percebi que não havia papel higiênico. Voltei para o quarto para pegar um rolo de papel trazido de nosso hotel de Hangzhou. Claro que, quando voltei para o banheiro, eu já havia perdido o lugar. Fiquei novamente por perto, lembrando-me da minha neta Camila fazendo a dancinha do xixi. Finalmente chegou minha vez, quando eu já havia dançado de maxixe a charleston. Qual não foi minha surpresa ao abrir a tampa da privada. Havia de um tudo por lá, pois a descarga “estragou-se”, como diria o Emílio. Devia ser chinesa. Lembrei-me daquelas histórias escatológicas do Adriano. Com a maior vontade de vomitar, peguei um baldinho que estava perdido por lá e consegui, a duras penas, fazer descer a sujeira. Não daria tempo para procurar outro banheiro e, provavelmente, não estaria em condições melhores. Aí limpei o banheiro e consegui fazer o xixi tão reprimido e desejado. O pior é que me senti feliz por ter achado um balde para limpar o banheiro. Ninguém “melece”, como diria a Camila. Limpar banheiro na China, definitivamente, não estava no script. Mal sabia eu que esse não seria o pior dia e que eu ainda sentiria saudades do bendito baldinho vermelho.
Passado o horror do banheiro, tomei um café da manhã ocidental, com yogurte, muitas frutas e até um cafezinho feito pelas brasileiras e fomos para a nossa visita matinal, que se iniciou com a fábrica dos grandes potes. Impressionante o tamanho dos potes e dos fornos. Havia potes de mais de quatro metros, mas a maioria tinha em torno de 2 a 2,5 metros. Eles são feitos de porcelana, em várias partes, que são emendadas quando estão em ponto de osso. Depois de emendados são limpos com ferramentas bem diferentes das que usamos. Como estão em ponto de osso produzem muita poeira e, novamente, choca ver a falta de segurança no trabalho. Ninguém usa máscara para se proteger daquela poeirada toda. Devem morrer cedo de silicose. Não à toa somente vimos jovens trabalhando. Os homens torneando e limpando as peças e as mulheres fazendo sua decoração. Não vimos o processo de esmaltação mas, imagino, seja feita com compressor e revólver. A decoração é, de forma geral, a tradicional chinesa, com fundo branco e pintura em azul, vermelho e preto, com motivos florais, pássaros, peixes e dragões. O desenho é feito sobre a peça crua, utilizando um papel bem fino, com o desenho perfurado, sobre o qual é passado nanquim. O pigmento utilizado para a pintura é feito à base de óxido de cobalto, no caso do azul, e de cobre, em redução, para o vermelho.
O passeio seguinte foi à Fábrica de Esculturas. O local era uma antiga fábrica, em local bem central da cidade, que foi desativada e cedida para ateliês de cerâmica. A separação entre artistas e artesãos é bem clara. Do lado direito de quem entra estão os ateliês de cerâmica artística, com peças muito lindas de cerâmica contemporânea. O calor estava insuportável e uma colega nossa, sempre muito arrumadinha e de batom, desabou. Visitou a área com uma toalhinha na cabeça, que era molhada de vez em quando. O batom desapareceu. Os cabelos das mulheres do grupo refletem bem as condições que enfrentamos. As de cabelos longos, os mantêm presos. As de cabelos crespos, usam um pote de creme a cada dia. As de cabelos curtos, como eu, já desistiram do secador. Felizmente no Sambao não há muitos espelhos, mas evito sair em fotos.
Na área da fábrica há dois cafés, mas apenas um estava aberto. Muito bonito, com café expresso, peças de cerâmica contemporânea e livros de cerâmica. Foi um grande alívio entrar em um local com ar condicionado, limpo, cheio de peças e livros interessantes. Tomei um café gelado, gostoso e comprei um livro e um DVD.
O café é propriedade, de novo não entendo o que significa ser proprietário de alguma coisa por aqui, de uma artista de Hong Kong que , segundo ouvi por lá, tem muitos contatos no exterior: Caroline Cheng. O café poderia estar no Soho. Encontramos muitos gringos participando de oficinas no espaço da Caroline Cheng. Deu para entender que essas oficinas rivalizam com o Scambao e deu para perceber, também, que eu estaria muito mais feliz por lá. Too late ou tarde piaste, como diria minha avó.
Do lado esquerdo da fábrica estão, na grande maioria, os artesãos. Fazem produção em série, usando barbotina líquida em moldes de gesso. Fazem aquela porcelana que a gente encontra em loja de chinês no Brasil: budas, vasos pintados com florzinha e coisas assim. E muitos, muitos Maos, claro, em todas as posições e de todos os tamanhos. O dia estava quente, muito quente e saímos de lá derrubadas. Foi o tempo de almoçar no Sanbao, dar uma descansadinha e partir para trabalhar no ateliê. Limpei as peças que eu havia produzido com aquela porcelana fantástica e consegui destruir quase tudo. A limpeza é feita com a peça quase seca e, para garantir aquela transparência, a peça é muito desbastada. Tudo muito diferente do trabalho no torno com argila a que estou acostumada.
A condição dos banheiros piorou e hoje senti falta do baldinho, que tiraram de lá. Tenho usado o banheiro do andar de cima, perto dos quartos das paulistas. O vaso sanitário é melhor, pelo menos funciona, e a companhia na fila é da melhor qualidade. Rimos muito. O chuveiro, visitado por aquele especialista dois dias antes, continua péssimo e está cada vez pior. Entre os dois quartos desse puxadinho do segundo andar, passa um córrego. Dá para imaginar, um “corguinho” escorrendo na sala e no quarto, com água vindo sabe-se lá de onde ? Que bichos será que ele exporta para dentro dos quartos?
À noite houve a apresentação do Pimenta e da Eliana sobre cerâmica no Brasil. Foi bem rápida, e eles preferiram mostrar fotos do salão de cerâmica do Paraná e dos trabalhos do pessoal do grupo. Eu não me lembrei de trazer as fotos e só encontrei umas poucas coisas no computador. Depois da apresentação, fomos à vernissage de uma ceramista local, na galeria ao lado do café gostoso, na fábrica de esculturas. No coquetel foram servidos: melancia, melão, frutas secas, tudo picado, à palito, com cerveja quente. Eles não tomam nada gelado. A brasileirada logo aprende a pedir “pin”, que significa gelada. Eles, para nos atender, trazem gelo. Cerveja com pedras de gelo. Outro must.
Quando chegamos ao Instituto fomos para o bar, que é o único espaço com ar condicionado, mas estava fechado. Aí o pessoal ficou furioso. Como se não bastasse todas as nossas agruras, até o pouco lazer com cerveja quente estava limitado, porque o funcionário que cuida do bar estava no seu dia de folga. Foi uma reclamação só, até porque estávamos todas ansiosas para comentar o que havíamos visto. Por mim, no melhor estilo “sem terra”, teríamos invadido uma salinha misteriosa que há em cima do restaurante, também com ar condicionado, que vive embaçada pela diferença de temperatura e cheia de uma gente estranha. Alguns do grupo acham que a tal sala é de uso do pessoal do partido, que chegam ao Scambao em muitos carros pretos, com cara de carro oficial. Outros acham que são os coreanos que têm ateliês separados no instituto e, parece, recebem tratamento VIP. Fazemos diariamente as maiores fantasias sobre o assunto. Diante dos nossos protestos, a “administração” do Scambao resolveu abrir o bar e liberar, claro que mediante pagamento, a cerveja quente. Fiquei um pouquinho por lá e fui dormir, morta de cansada e de suar.
Feirinha de cerâmica e Fábrica do Museu Imperial (11 de julho)
Hoje fomos à feirinha, que acontece aos sábados, na área da fábrica de esculturas. Passeamos pelas barraquinhas dos ceramistas, compramos algumas coisinhas e fomos para o café moderno e fresquinho matar a saudades de um café expresso, muito raro por aqui. Os ceramistas eram quase todos muito jovens, alunos da universidade, que fazem muita bijuteria para vender baratinho. Havia umas peças feitas com cacos de porcelana decorada, segundo eles “antiques”, com uma moldura de prata. Lindos, mas bem caros para quem não sabe negociar. Havia também muitas chaleirinhas lindas de porcelana esmaltadas de celadon, mas difíceis de carregar. Comprei umas poucas peças e fui para o ar condicionado do café, que ninguém é de ferro.
Mais tarde fomos visitar a Fábrica do Museu Imperial. Lá são fabricadas réplicas autorizadas das peças de porcelana das várias dinastias chinesas. O Pimenta fez uma rápida apresentação sobre as principais características das formas e decoração das diversas dinastias ainda no show room da fábrica. Depois visitamos a fábrica e vimos o processo de produção das peças, incluindo o trabalho de torno; sua decoração, desde a forma como os desenhos são passados para as peças até sua pintura com pigmentos. Mais uma vez fiquei chocada com as condições de trabalho dos oleiros. As peças são feitas com uma espessura maior e quando estão em ponto de osso são desbastadas, até ficarem fininhas e com uma certa transparência. O processo de limpeza das peças gera uma poeirada infernal, que vai se acumulando no chão, paredes e, provavelmente, nos pulmões dos oleiros. Eles trabalham somente de calção e chinelos, sem qualquer proteção de máscaras.
Hoje resolvi mudar de banheiro e fui usar o do andar térreo que me disseram ter um chuveiro com água suficiente, embora a privada seja oriental. Como eu só queria tomar banho não me pareceu mal tentar mais uma alternativa. De fato o chuveiro tinha água mas, em compensação, o banheiro estava inundado por uns três dedos de água. Quer dizer, a água do chão ultrapassava minha havaiana. Mesmo com o maior nojo, tomei banho lá mesmo, até porque havia fila nos demais banheiros e a hora do jantar estava próxima. Cheguei para o jantar atrasada e não havia lugar para eu me sentar. Havia chegado um professor americano que, mais esperto e experiente, está acomodado em um hotel da cidade. Por conta dele, imagino, Jinjin e outros funcionários do Instituto estavam jantando lá. Devo ter reclamado da falta de cadeira com grande ênfase, pois mal acabei de falar e foi só chinesinho pulando fora das mesas e abrindo lugar para eu me sentar. Esforço perdido porque não consegui jantar. A comida estava fria, pouca e muito mexida. Assim que fui me servir, fui informada pelas colegas que o arroz estava com gosto de mofo. O arroz é servido em umas panelinhas de madeira bem fininha. Como aumentou o número de pessoas que estava jantando no Instituto eles devem ter pego panelinhas que estavam há muito tempo sem uso. Não deu para comer nada. Meu jantar foi uma coca-cola. Saí da mesa com a maior fome e muito emputecida. Felizmente depois do jantar haveria uma festa brasileira, com caipirinha e bolo de chocolate. Como em todo cocktail chinês havia muitas frutas picadas e nisso ficou reduzido o meu jantar. A festa foi animada, todos beberam caipirinha e dançaram salsa ao som de samba e pagode. Foi interessante pois as funcionárias do Instituto também participaram e dançaram bastante. O professor americano, que é também professor de salsa, dançava muito bem, assim como algumas de nossas colegas. Eu não estava com espírito de dança e só tirei fotos. O bolo de chocolate, muito decorado, comprado pela Jinjin estava delicioso. Acho que a festa e o bolo foram uma forma dela se desculpar pelo incidente do bar no dia anterior. Eu não fiquei até o final da festa. Estava muito cansada e na minha cabeça já estava claro que era hora de dar o fora, vazar. Fui para o quarto, liguei a internet e procurei os horários de vôos para Pequim e hotéis de rede internacional, de quatro e cinco estrelas. Descobri que havia dois ou três vôos diários para Pequim, havia lugares disponíveis tanto nos vôos quanto nos hotéis e, incrível, os preços dos hotéis eram quase os mesmos que eu pagava para penar no Scanbao.
12 de julho – Domingo – Praça Popular do Povo Popular da China Popular
A colega que quebrou o pé está imobilizada na cama, em um quarto que é um verdadeiro forno, com barulho e poeira de demolição o dia todo. Ainda não consegui que trocassem a roupa de minha cama, nem que o lixo histórico fosse recolhido. Como não há a menor diferença entre os dias da semana, passamos todo o domingo trabalhando no ateliê. Continuei penando no torno sem o menor sucesso. No final do dia, fomos à cidade de Jingdzhen para visitar a Praça Popular do Povo Popular da China Popular. Parece maluco, mas é assim mesmo que a praça é chamada, segundo o Pimenta. A moeda chinesa, chamada internacionalmente de Yuan, é tratada na China como remibim, escrita como RMB, que os gringos chamam de ar-eme-bi, que significa dinheiro do povo. Tudo é do povo por aqui. Pobre povo. Nós só chamamos o dinheiro de chingling. Não sei quem inventou, mas ficou muito mais fácil de lembrar.
Começamos subindo ao último andar de um prédio que concentra lojas de porcelana. No último andar, havia um tipo de show room com peças muito bonitas e fotos de grandes ceramistas chineses. A medida em que se desce para os andares inferiores, piora a qualidade dos produtos. Comemos no KFC, escolhido pelo rapaz do Instituto que nos ajuda com o material, e matei as saudades de batata frita.
Andamos pelas ruas próximas da praça popular do povo popular da China popular, com lojas mais modernas de roupa e deu para verificar que os preços das roupas melhorzinhas eram bem próximos dos preços brasileiros. As roupas são muito estranhas para nosso gosto: muito brilho, muito material sintético, tamanhos mínimos.
Embora sem qualquer incidente maior nesse dia eu decidi que era mesmo hora de me mandar. Manifestei para a Eliana minha decisão. Ela entendeu perfeitamente, embora preferisse ficar e cumprir o período da visita.
Favelinha e Saída (13 de julho)
Acordei cedo e comecei a arrumar minhas coisas. A Raquel, do grupo das paulistas, resolveu me acompanhar. Informamos ao Pimenta e à Jinjin nossa decisão de ir embora e os dois reagiram bem. A Jinjin nos ajudou a comprar as passagens aéreas e acertou com o motorista a hora de nos levar ao aeroporto. Ainda deu tempo de visitar uma área da cidade, muito pobre, onde se localizam várias oficinas de produção de ferramentas. Comprei mais ferramentas. O motorista chegou atrasado ao Instituto e eu já estava apavorada com a possibilidade de perder o avião. Mas deu tempo para tudo. Minhas malas foram abertas no aeroporto e muito remexidas por uma funcionária e até por seu filho, um menino de uns 10 anos. É impressionante a informalidade das coisas. Tive que retirar a bateria de meu computador e colocá-la na mala. Aparentemente não se pode manter na bagagem de mão baterias de computadores. Vá entender.
Na sala de espera do vôo todos os avisos eram em chinês. Como não entendíamos nada, a cada chamada íamos para a fila de embarque. A funcionária sorria e fazia não com a mão. Voltávamos a nos sentar até o próximo aviso. O avião saiu com 3 horas de atraso.
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